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Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC): Roubando o fôlego

setembro 26, 2017 • Por


Em mais um artigo da série de esclarecimento de dúvidas do público, o Dr. Frederico Fernandes, Coordenador da Comissão Científica de DPOC da SBPT, traz informações básicas e referências científicas sobre a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica. 

DPOC se apresenta como a bronquite crônica e enfisema. Ocorre dano aos brônquios, tornando-os inflamados, estreitos e cheios de secreção. A DPOC costuma afligir pessoas após os 40 anos de idade. O principal sintoma da DPOC é falta de ar. Pode se apresentar como cansaço ou dificuldade para realizar as atividades do dia a dia.

Conforme a doença progride, especialmente se continua exposto ao cigarro, o pulmão perde a capacidade de oxigenar o sangue adequadamente, fazendo com que o paciente necessite usar um cilindro ou concentrador de oxigênio durante todo o dia. Todos os fumantes com mais de 40 anos e sintomas respiratórios como falta de ar ou tosse devem fazer uma espirometria.

O que é DPOC?

Imagine uma doença que acelera o envelhecimento. Semanas passam com efeito de meses, o corpo envelhecendo anos em apenas alguns meses. No início seria difícil de notar. Uns poucos cabelos brancos, pele enrugada. Mas em algum tempo se acabaria o vigor da juventude.

Existe uma doença que causa o envelhecimento precoce dos pulmões. A DPOC, sigla para Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, é assim. Ataca as vias respiratórias causando uma perda acelerada da função pulmonar. Um rápido envelhecimento das vias respiratórias. (1)

Os brônquios são estruturas que levam o ar por dentro do pulmão até os alvéolos. São como canos onde o ar entra e sai a cada respiração. Nos alvéolos ocorre a passagem de oxigênio para o sangue. Para que o pulmão funcione bem, os brônquios devem estar limpos e abertos, enquanto os alvéolos devem estar íntegros.

DPOC se apresenta como a bronquite crônica e enfisema. Ocorre dano aos brônquios, tornando-os inflamados, estreitos e cheios de secreção. Os alvéolos também podem ser prejudicados. São destruídos formando bolhas no pulmão, o enfisema. (2)

É pouco diagnosticada. A maioria dos portadores não sabe que têm a doença. Em um levantamento realizado em diversas cidades da América Latina entre os adultos com mais de 40 anos mostrou que 11 a 27% são portadores de DPOC. No entanto, menos de 1% conheciam a doença e poucos faziam algum tipo de tratamento. (3)

O que causa a DPOC?

Na maioria das vezes é consequência de anos de uso do cigarro, mas outras exposições, como forno a lenha ou gases tóxicos no ambiente do trabalho, também podem causar essa morbidade.

Um em cada quatro fumantes de longa data vai desenvolver DPOC. Quanto mais cigarros fumar maior o risco. Existe, também, predisposição genética. A mais comum é a deficiência de uma enzima que protege o pulmão contra a inflamação do cigarro, a Alfa1-Antitripsina. Pessoas com essa deficiência desenvolvem enfisema precocemente mesmo fumando pouco ou sem fumar. (4, 5)

Exposições durante o início da vida também aumentam o risco para desenvolver DPOC. Asmáticos, pessoas que nasceram prematuras, quem teve muitas infecções respiratórias na infância ou quem conviveu com pais fumantes dentro de casa têm chance maior de ter DPOC, mesmo fumando pouco. (6)

Será que eu tenho DPOC?

A DPOC costuma afligir pessoas após os 40 anos de idade. O principal sintoma da DPOC é falta de ar. Pode se apresentar como cansaço ou dificuldade para realizar as atividades do dia a dia.

Em geral é progressiva. Começa com uma dificuldade para atividades mais vigorosas, subir ladeiras ou escadas. Depois passa a apresentar fadiga ao andar no plano. Conforme a doença progride, o desconforto pode aparecer mesmo as mínimas atividades, tomar banho, se vestir e fazer pequenos trabalhos em casa.

Quem tem DPOC também pode apresentar tosse, geralmente matinal e com produção de catarro, e sensação de peito cheio ou sensação de ronco no pulmão durante a respiração.

É muito importante prestar atenção nos sintomas. Muitos pacientes têm falta de ar e tosse, mas acham que essa condição é normal, devido ao cigarro ou a idade. Tosse diária, especialmente com catarro, nunca é normal. E é sempre bom comparar sua capacidade física a de pessoas da mesma idade. Caso esteja ficando para trás, mais cansado ou com menos capacidade física, a possibilidade de DPOC deve ser levantada. (7)

Conforme a doença progride, especialmente se continua exposto ao cigarro, o pulmão perde a capacidade de oxigenar o sangue adequadamente, fazendo com que o paciente necessite usar um cilindro ou concentrador de oxigênio durante todo o dia. (8)

Algumas vezes, principalmente quando ocorre uma infecção respiratória como gripe, sinusite ou traqueobronquite, os sintomas da DPOC podem piorar rapidamente. A falta de ar fica muito intensa e a tosse se intensifica acompanhada de mudança no aspecto do catarro.

Esses momentos de piora são chamados de exacerbações. Dependendo da gravidade podem piorar rapidamente o funcionamento dos pulmões e levar a risco de vida. Uma pessoa com DPOC que teve duas ou mais exacerbações no período de um ano tem alto risco de novas exacerbações no futuro. (9)

O diagnóstico da DPOC é muito simples. Um exame chamado ESPIROMETRIA que é a medida de como está a função do pulmão deve ser solicitado. Este exame dura entre 20 e 30 minutos e é muito seguro. (10)

Todos os fumantes com mais de 40 anos e sintomas respiratórios como falta de ar ou tosse devem fazer uma espirometria. Com o resultado da espirometria é possível determinar se os sintomas são causados pela DPOC.

Como é o tratamento?

Em relação ao tratamento, o mais importante é parar de fumar. Quando se deixa esse hábito a função do pulmão melhora inicialmente e, depois, a doença para de evoluir. O envelhecimento pulmonar desacelera e fica igual ao dos não fumantes.

É muito importante estar em dia com as vacinações. Quem tem DPOC deve ser vacinado anualmente contra a gripe e ser vacinado contra pneumonia. A vacinação previne as formas mais graves dessas doenças e diminui o risco de exacerbações. (11, 12)

Com o envelhecimento pulmonar e o cansaço constante, é comum a quem tem DPOC evitar a atividade física e levar uma vida sedentária. Isso aumenta a intolerância aos esforços e piora ainda mais a qualidade de vida. Uma das recomendações mais importantes é a realização de atividade física frequente. Ao menos 30 minutos de atividade 3 a 5 dias por semana, preferencialmente ao ar livre é a principal recomendação. (13)

Até poucos anos atrás não existiam opções de medicações eficazes para a DPOC. A realidade hoje é diferente. Novas medicações inalatórias conseguem melhorar a capacidade de realizar as atividades físicas, diminuem a falta de ar. Existem também opções de medicamentos para estabilizar a doença e diminuir o risco de crises ou exacerbações.  (14)

Se a DPOC está roubando seu fôlego, converse com seu médico. O diagnóstico de DPOC é simples e existem recursos para trazer o fôlego de volta.


Informações: Dr. Frederico Fernandes – Médico Pneumologista do HC-FMUSP e Coordenador da Comissão Científica de DPOC da SBPT.

Referências

  1. Ito K, Barnes PJ. COPD as a disease of accelerated lung aging. Chest. 2009;135(1):173-80.
  2. Mannino DM. COPD: epidemiology, prevalence, morbidity and mortality, and disease heterogeneity. Chest. 2002;121(5 Suppl):121S-6S.
  3. Menezes AM, Perez-Padilla R, Jardim JR, Muino A, Lopez MV, Valdivia G, et al. Chronic obstructive pulmonary disease in five Latin American cities (the PLATINO study): a prevalence study. Lancet. 2005;366(9500):1875-81.
  4. Buist AS, McBurnie MA, Vollmer WM, Gillespie S, Burney P, Mannino DM, et al. International variation in the prevalence of COPD (the BOLD Study): a population-based prevalence study. Lancet. 2007;370(9589):741-50.
  5. Ioachimescu OC, Stoller JK. A review of alpha-1 antitrypsin deficiency. Copd. 2005;2(2):263-75.
  6. Bush A. COPD: a pediatric disease. Copd. 2008;5(1):53-67.
  7. Kessler R, Partridge MR, Miravitlles M, Cazzola M, Vogelmeier C, Leynaud D, et al. Symptom variability in patients with severe COPD: a pan-European cross-sectional study. The European respiratory journal. 2011;37(2):264-72.
  8. Viegi G, Pistelli F, Sherrill DL, Maio S, Baldacci S, Carrozzi L. Definition, epidemiology and natural history of COPD. The European respiratory journal. 2007;30(5):993-1013.
  9. Rodriguez-Roisin R. Toward a consensus definition for COPD exacerbations. Chest. 2000;117(5 Suppl 2):398S-401S.
  10. Buffels J, Degryse J, Heyrman J, Decramer M, Study D. Office spirometry significantly improves early detection of COPD in general practice: the DIDASCO Study. Chest. 2004;125(4):1394-9.
  11. Wongsurakiat P, Maranetra KN, Wasi C, Kositanont U, Dejsomritrutai W, Charoenratanakul S. Acute respiratory illness in patients with COPD and the effectiveness of influenza vaccination: a randomized controlled study. Chest. 2004;125(6):2011-20.
  12. Alfageme I, Vazquez R, Reyes N, Munoz J, Fernandez A, Hernandez M, et al. Clinical efficacy of anti-pneumococcal vaccination in patients with COPD. Thorax. 2006;61(3):189-95.
  13. Garcia-Aymerich J, Lange P, Benet M, Schnohr P, Anto JM. Regular physical activity reduces hospital admission and mortality in chronic obstructive pulmonary disease: a population based cohort study. Thorax. 2006;61(9):772-8.
  14. Menezes AM, Macedo SE, Noal RB, Fiterman J, Cukier A, Chatkin JM, et al. Pharmacological treatment of COPD. Jornal brasileiro de pneumologia : publicacao oficial da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisilogia. 2011;37(4):527-43.