Radar da Pneumologia

Cigarro eletrônico: a verdade atrás da névoa

Maio 21, 2018 • Por


Na edição de 25/04, o British Medical Journal (BMJ) trouxe um debate sobre o uso do cigarro eletrônico (e-cig) como meio de cessação do tabagismo, substituindo o adesivo e outros recursos de terapia de reposição da nicotina (TRN).

O pneumologista Dr. Gustavo Prado, coordenador das Comissões de Câncer de Pulmão da SBPT e Ensino da SPPT, comentou a discussão do BMJ no artigo Cigarro eletrônico: a verdade atrás da névoa.

Com base em dados científicos, o Dr. Prado mostra que o discurso assumido pela indústria se assemelha à névoa da fumaça, uma vez que apresenta o e-cig como redutor dos danos causados pelo cigarro e “desorienta” os consumidores mais desavisados. O pneumologista mostra por que as argumentações a favor do cigarro eletrônico como ferramenta de controle do tabagismo são “frágeis e falaciosas”.

Parar de fumar fumando?

A discussão do BMJ foi travada entre um pesquisador britânico e um canadense. Paul Aveyard, professor de Medicina Comportamental no Reino Unido e filiado ao Departamento de Atenção Primária em Ciências de Saúde da Universidade de Oxford, afirmou que as pessoas preferem o cigarro eletrônico a outros métodos para deixar de fumar, ainda que paguem mais por ele.

No contraponto, o Dr. Kenneth C Johnson, Professor Adjunto de Epidemiologia e Saúde Pública da Universidade de Ottawa (Ontario, Canadá), relatou as limitações metodológicas do único ensaio clínico controlado que avaliou a eficácia dos vaps comparados aos adesivos de nicotina em apenas seis meses de seguimento.

De forma parcial no debate, Aveyard destacou uma pesquisa de sua própria autoria que sugere que o e-cig pode ser mais eficaz para deixar de fumar do que os adesivos de nicotina.


É bom lembrar que…

Em fevereiro deste ano, o mesmo estudo de Aveyard foi refutado pelos professores Mina Gaga, Tobias Welte e Thierry Troosters – presidente, presidente eleito e vice-presidente da European Respiratory Society (ERS) – que explicaram, em carta aberta ao BMJ, por que o cigarro eletrônico não pode ser recomendado para a cessação do tabagismo.

“Os e-cigs podem ser ponte para a dependência de nicotina e um veículo para o uso a longo prazo”, evidencia a ERS.


Também contrário à recomendação do cigarro eletrônico como método de cessação do tabagismo, Dr. Kenneth Johnson menciona a importante publicação do Professor Stanton Glantz, da Universidade da Califórnia, meta-análise norte-americana com base em 25 estudos que demonstra que os usuários de vaporizadores têm 32% menos chance de deixarem de fumar.

Para ratificar o risco, um recente artigo publicado no American Journal of Preventive Medicine também associa o e-cig a uma menor probabilidade de parar de fumar.

Cigarro eletrônico pode ser só o começo

De acordo com o especialista canadense, o cigarro eletrônico é um recurso da indústria para expandir o mercado de nicotina e recrutar jovens que provavelmente não provariam o cigarro de tabaco.

Inclusive, há novos modelos no mercado que associam a tecnologia aos vaporizadores, tornando-os ainda mais atrativos para crianças e adolescentes.

Sobre o assunto, Dr. Johnson recomenda o estudo britânico de 2016, que avaliou mais de 1.100 voluntários de 11 a 18 anos de idade e observou que os jovens que não haviam experimentado tabaco e aderiram ao cigarro eletrônico tiveram risco 12 vezes maior de se tornarem fumantes do que aqueles que não utilizavam o vaporizador.

Para finalizar o assunto e triunfar na discussão, o professor Kenneth Johnson também explora as evidências que associam o (até então “seguro”) cigarro eletrônico a um risco 79% maior de infarto, em análise ajustada para consumo de cigarro, características demográficas e de saúde.

“O legado cruel de um século da epidemia de dependência da nicotina, e as mortes e incapacidades relacionadas ao tabaco nos cobram um olhar cauteloso. Recomendar cigarros eletrônicos para cessação do tabagismo é irresponsável”, completa Johnson.

A National Academies of Sciences Engineering Medicine disponibiliza um livro gratuito para download sobre as consequências do uso do cigarro eletrônico para a saúde pública. Baixe aqui.


Fonte: Cigarro eletrônico: a verdade atrás da névoa.