Radar da Pneumologia

Pesquisa avalia a eficácia dos programas de cessação do tabagismo

julho 4, 2018 • Por


Em artigo publicado no New England Journal of Medicine (NEJM), pesquisadores norte-americanos apresentaram os resultados de um estudo controlado e aleatorizado dedicado a avaliar o impacto de incentivos financeiros a um programa pragmático de cessação de tabagismo envolvendo mais de 6 mil voluntários.

Os autores avaliaram 6.006 fumantes, entre trabalhadores de 54 empresas dos EUA e suas esposas, alocados de forma aleatorizada para cinco diferentes intervenções, conforme o método de cessação do tabagismo a ser adotado:

  • Tratamento farmacológico gratuito (terapia de reposição de nicotina, ou vareniclina, ou bupropiona, com possibilidade de uso de cigarro eletrônico em caso de falha.
  • Cigarro eletrônico fornecido gratuitamente.
  • Tratamento farmacológico gratuito acrescido de um incentivo financeiro de US$ 600, no caso de atingirem abstinência.
  • Tratamento farmacológico gratuito e resgate de um investimento pessoal de US$ 600, no caso de atingirem abstinência.
  • Programa de cuidados habituais, que inclui acesso a informações sobre os benefícios da cessação do tabagismo para a saúde, estratégias e dicas para parar de fumar via SMS.

Todos os voluntários foram estimulados a acessar um portal online com um “pacote” comum de orientações gerais sobre benefícios da cessação do tabagismo, além de informações específicas sobre seu grupo de intervenção, data determinada para cessar o tabagismo, instruções da coleta de material (sangue e urina) para mensuração de biomarcadores do uso do tabaco e, quando aplicável, orientações de como proceder ao resgate dos incentivos financeiros.

Do total de colaboradores selecionados, 1.191 (19,8%) acessaram efetivamente o portal. Estes foram classificados como os mais engajados (“engaged cohort”) e avaliados em uma análise secundária.

Resultados

Os autores observaram que a adição de incentivos financeiros ao fornecimento de tratamento medicamentoso gratuito pode triplicar a efetividade da intervenção terapêutica de cessação do tabagismo. A possibilidade de resgate de um depósito prévio foi a medida mais eficaz do estudo, do ponto de vista do desfecho de abstinência tabágica, como mostra o gráfico.

No geral, a adesão ao “tratamento padrão” foi baixa, o que se mostra pela pequena porcentagem de “engajados” e pelo baixo envio de amostras para medida de biomarcadores. Os resultados evidenciam, ainda, que o fornecimento de tratamento farmacológico não conferiu um benefício estatisticamente significativo comparativamente ao “controle”.

“Como é de se esperar neste tipo de estudo pragmático, em que se oferece determinada intervenção terapêutica a um grupo de indivíduos não necessariamente motivados a cessar o tabagismo e não efetivamente acompanhados em um programa estruturado de aconselhamento e consultas, as taxas de abstinências são baixas, especialmente por se utilizar nas análises o princípio de ‘intenção de tratar’, em que se presume que todos os que abandonaram o seguimento ou que não retornaram os contatos são considerados como ‘falhas de tratamento’”, observa o Dr. Gustavo Prado, pneumologista da Comissão de Câncer de Pulmão da SBPT.

O cigarro eletrônico foi mais usado entre o grupo já designado a consumi-lo, ainda que o produto tenha sido oferecido aos participantes da assistência gratuita à cessação.

O fornecimento de tratamento farmacológico, neste estudo, não conferiu um benefício estatisticamente significativo comparado ao “controle”, o que vai ao encontro do resultado de alguns outros estudos pragmáticos dedicados a avaliar o uso não supervisionado do tratamento farmacológico para cessação do tabagismo ¹,² e ³.

Apesar dos resultados modestos, esse trabalho apresenta alguns aspectos relevantes, como a grande casuística e seu desenvolvimento multicêntrico. A “prova de conceito” de que, mesmo num cenário sub ótimo ─ do fornecimento de tratamento de cessação de tabagismo sem um acompanhamento estruturado, especializado e individualizado ─ há um nítido benefício da adoção de incentivos financeiros à cessação do tabagismo, pode servir de fundamento e referência para a implantação de programas de bem-estar nos locais de trabalho.


Referência: A Pragmatic Trial of E-Cigarettes, Incentives, and Drugs for Smoking Cessation – Scott D. Halpern, Michael O. Harhay, Kathryn Saulsgiver, Christine Brophy, Andrea B. Troxel and Kevin G. Volpp – June 14, 2018 – N Engl J Med 2018; 378:2302-2310 – DOI: 10.1056/NEJMsa1715757

¹Kotz D, Brown J, West R. ‘Real-world’ effectiveness of smoking cessation treatments: a population study. Addiction. 2014;109(3):491-499.
²Hughes JR, Shiffman S, Callas P, et al. A meta-analysis of the efficacy of over-the-counter nicotine replacement. Tobacco Control. 2003;12:21-27.
³van den Brand FA, Nagelhout GE, Reda AA, Winkens B, Evers SM A A, Kotz D, van Schayck OCP. Healthcare financing systems for increasing the use of tobacco dependence treatment. Cochrane Database of Systematic Reviews 2017, Issue 9. Art. No.: CD004305. DOI: 10.1002/14651858.CD004305.pub5.