Radar da Pneumologia

Dia Nacional de Combate ao Fumo é em 29 de agosto. Veja dicas para largar o cigarro

agosto 7, 2018 • Por


O Dia Nacional Sem Tabaco deste ano alerta para as doenças cardiovasculares causadas pelo fumo. Para enfrentar a abstinência de nicotina e prevenir essas enfermidades, a Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) recomenda incluir atividades físicas na rotina.

O exercício físico é um grande aliado para largar o cigarro. Há evidências científicas 1  de que a prática aumenta progressivamente a autoestima, o bem-estar físico e mental e diminui a propensão a episódios de depressão. Além disso, a atividade física estimula a produção de endorfina, hormônio neurotransmissor que ajuda a combater a ansiedade e o mau humor associados à abstinência, diminuindo a dependência de nicotina.

“A ambivalência (querer deixar de fumar versus seguir fumando) leva a uma situação de conflito permanente, pois 80% dos fumantes sabem dos riscos que correm e das chances de ocorrer um evento agudo, como infarto ou derrame cerebral, ou crônico, como enfisema e doença isquêmica coronariana”, observa o Dr. Alberto Araújo, pneumologista das Comissões Científicas de Tabagismo da SBPT e AMB.

“Uma vez que se pratica exercícios, a circulação sanguínea melhora consideravelmente, eliminando as impurezas que podem se acumular em decorrência da vida sedentária e/ou alimentação desequilibrada”, orienta o médico.

O desafio de superar essa ambivalência pode começar pela mobilização por uma melhora da qualidade de vida, com alimentação equilibrada, boa higiene do sono, redução da carga de trabalho e do estresse, melhor condicionamento físico e mental, dentre outros fatores.

Fisiologia do Exercício

Conforme explica o especialista em Cardiologia e Fisiologia do Exercício, Dr. Cláudio Gil de Araújo, ao longo da prática de exercícios, os mecanismos fisiológicos entram em ação para manter a homeostasia (regulação do equilíbrio das reações químicas no organismo), minimizando as variações de pH e de pressões parciais de O2 e de CO2 nos tecidos, dissipando o calor produzido e proporcionando substratos energéticos para os músculos.

Estudos epidemiológicos 2 confirmam que as pessoas com maior condição aeróbica (VO2), ou seja, maior capacidade de captar e utilizar o O2 inspirado, tendem a ser mais longevas. Quando se comparam os 20% indivíduos com VO2 máximo e os 20% com VO2 mínimo, há diferenças de até cinco vezes na taxa de mortalidade anual.

Conforme orienta o Dr. Gil, quem possui baixa condição aeróbica precisa fazer exercícios regulares de alta intensidade para suplantar, eventualmente e por alguns minutos, o limiar anaeróbico, que acontece quando o ácido lático produzido pela queima de glicose começa a se acumular no sangue.

“Uma técnica empírica simples para avaliar se a intensidade do exercício é vigorosa é observar se há dificuldades de contar de um a sete em voz baixa enquanto se pratica a atividade. Se for preciso interromper para respirar é porque a potência está alta”, ensina.

Para o Dr. Cláudio Gil, as caminhadas com duração de 30 minutos, na maioria dos dias, provavelmente será uma dose insuficiente para a promoção da saúde em homem ou mulher de meia-idade. Para alcançar uma intensidade ótima, muitas vezes será necessário correr, pedalar, nadar ou participar de atividades desportivas.

“À luz das evidências, a alta intensidade da atividade (ainda que eventual) parece ser mais importante do que a duração da sessão e a frequência semanal, especialmente para aqueles que possuem condição aeróbica baixa por base genética desfavorável e/ou sedentarismo”, conclui o médico.

Na prática clínica, o Dr. Alberto Araújo observa que os fumantes que tinham uma vida completamente sedentária e que aderiram apenas às caminhadas de 30 minutos, pelo menos três vezes na semana, já passaram a considerar o exercício como indispensável para atingir seus objetivos.

“Só de permanecer sem fumar durante o tempo da caminhada ou corrida, o paciente deixa de respirar as mais de 7 mil substâncias tóxicas do cigarro. Ao sorver o ar puro, de forma ritmada, ele elimina mais rápido o monóxido de carbono e aumenta os níveis de oxigênio na circulação”, motiva o pneumologista.

Vencendo a abstinência

Quando o indivíduo se exercita, a endorfina liberada pelo organismo provoca um bem-estar semelhante ao proporcionado pela dopamina, hormônio neurotransmissor produzido pelo nucleus accumbens, região localizada na área tegmental ventral do cérebro. “Essa área cerebral é tão estimulada pela nicotina que o indivíduo fumante vive em um estado de ‘embriaguez’ por dopamina. Quando os níveis da nicotina caem, cessando o estímulo, a pessoa sente um desejo quase incontrolável de fumar. Isso acontece como um ritmo pendular, a cada 20-40 minutos”, explica o Dr. Araújo.

Por meio das caminhadas ou corridas regulares, é possível restabelecer o equilíbrio orgânico das doses de dopamina e endorfina, superando os sintomas da síndrome de abstinência, que aparecem de forma mais intensa nos primeiros dias de cessação do tabagismo e prosseguem por cerca de 2 a 4 semanas.

Os sintomas mais frequentes da abstinência são irritabilidade, nervosismo, inquietação, alteração do sono (insônia ou sonolência excessiva), cefaleia, tontura, dificuldade de concentração e sudorese fria.

O apoio medicamentoso alivia os sintomas durante 12 semanas, em média, podendo ser prolongado a critério do médico, de acordo com as necessidades do paciente.

A caminhada ou corrida como práticas aliadas no tratamento do tabagismo devem ser iniciadas, pelo menos, duas semanas antes da abstinência. Podem ser associadas a exercícios respiratórios, como técnicas de inspiração profunda e expiração lenta, em ciclos de 3 a 5 vezes.

“Na véspera da cessação, nos preparativos para o grande dia de deixar o cigarro, uma boa caminhada ou corrida pode aumentar a confiança e a autoestima necessária para transformar a data em um marco inicial para vencer um dos mais difíceis desafios da vida”, encoraja o Dr. Alberto.


  1. Mammen and Faulkner. Physical activity and the prevention of depression: a systematic review of prospective studies. Am J Prev Med. 2013 Nov;45(5):649-57. doi: 10.1016/j.amepre.2013.08.001.
  2. Williams, PT. Physical fitness and activity as separate heart disease risk factors: a meta-analysis. Med Sci Sports Exerc. 2001 May;33(5):754-61.